terça-feira, 8 de março de 2011

Infância

Quando eu era jovem - mais jovem do que sou hoje, meu grande sonho era ser astronauta.
Eu costumava pintar o mundo do meu jeito, com giz de cera cor de rosa e, para terminar a obra de arte, eu o enfeitava com algumas estrelas coloridas, daquelas que a gente compra em lojinhas de 1,99.
Se sobrava um tempo, eu pegava a minha bicicleta e corria em volta do jardim da minha mãe, do jardim da minha vizinha e até arriscava ir mais longe, dobrando a esquina e perdendo de vista o olhar de Maria, que sempre se preocupava com a rapidez com que eu pedalava, me afastando cada vez mais da sua saia.
De noite, cansada, eu deitava na minha cama e dormia como um gato despreocupado da vida e do amanhã.
Nunca acordei no horário, mas sempre tive tempo.
E quando os primeiros raios de Sol despertavam os meus olhos, sempre as 10h da manhã, a Maria me arrumava para ir pra escola. Ela cuidava de mim, dos meus dentes, da minha roupa. Penteava os meus cabelos e repartia-os em dois, preparava a minha comida e mexia o meu suco, e a minha única preocupação era tirar boas notas na escola e ser boazinha com os animais.
Maria vivia me dizendo "Carolina, você é a filha que eu não tive, gosto de você assim como eu gosto dos meus filhos". E os seus olhos se enxiam de lágrimas que nunca vi caindo... Ela era forte, muito forte. Gostava de mim e das minhas encrencas. Uma vez, ela disse que o meu quarto parecia um ninho de pássaros - eu começava a piar e ela ria.
Maria foi a parte mais intensa da minha infância.
Hoje, não a vejo mais. Está cuidando dos seus afazeres de casa, dos seus filhos adultos, do seu marido doente. Sempre pergunto a minha mãe quando nós vamos visitar a Maria. Sem paciência, minha mãe responde "Carolina, esse mês não dá. É chato ir lá sem levar nada... Deixa para o mês que vem."
Tudo bem, mãe.
E agora, que sou jovem - não tão jovem quanto era ontem, sinto saudades do aconchego que os braços de Maria me davam. Sinto saudades da sua risada leve e despreocupada. Sinto saudades de pertencer ao meu mundo de giz de cera cor-de-rosa e de andar de bicicleta. Estou por minha conta, agora que sou jovem.
Todos dizem que eu sei me cuidar.

2 comentários:

  1. A infância deveria ser um filme... mas ela é lembrança, que de tão boa dói uma dorzinha gostosa só por sabe que passou e não volta.

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  2. Passou e não volta. E o que fica, minha querida? Apenas a saudade, os sorrisos estampados na memória, o aperto no coração...

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