terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sentido

O dia começou bem cedo, como todos os dias. Mal abri os olhos e diante da porta ouço o ruído dos passos que pertencem a minha mãe. Perco o sono. Acordo, me arrumo, me ajeito, me enfeito, me substantivo diversas vezes antes do café. Os dias são curtos e as noites são longas. Quando dou por mim, já se passou o tempo e oficialmente me atraso.
Pacientemente, há alguém que me espera na esquina de casa, controlando e mantendo o próprio controle sob a topic-quase-sempre-quebrada. Entro, me acomodo, abro o vidro, fecho o vidro, mudo a estação de rádio, volto para a primeira, desisto de achar música boa e 89fm permanece na caixa-de-som-não-tão-potente.
Os meus olhos fecham e abrem como cortinas e em quinze minutos, depois de uma constante harmonia entre o sono e o “acorde!”, eu desembarco.
Saí, pulei, andei e encontrei a tchurma. “Bom dia” mal dado pra cá, “oi pra você também” pra lá, “onde você quer sentar?” de um lado e “tanto faz” de outro. Pronto, me ajeitei, me acomodei, podemos sentar e conversar agora?
O tempo se prolonga numa demora infinita, percorrendo o tédio, o cansaço, a desistência-não-tão-explícita, a vontade de jogar tudo para o ar e faltar, mas faltar muito, como estão fazendo por aí e espalhando a minha admiração em cada chamada.
Lado bom das coisas ruins é lembrar que 11h05 é o horário do almoço, independente de quão chata foi a matéria, da bronca, das brincadeiras nostálgicas e totalmente sem graças dos queridos vencedores do sono diário. Outra vez a indecisão aparece, “onde você prefere sentar?”, “tanto faz”, “por mim também”, “que tal aqui?”, “ótimo”. Comemos, lembramos, adicionamos sal, pagamos, partimos.
De volta ao início desagradável de cruzar a entrada com os sortudos que estudam no matutino. Voltarão para casa, terão o almoço preparado pela mamis, quentinho, darão aquele cochilo precioso e inexplicável que só depois de comer você pode almejar.
A rotina das cadeiras retorna. Escolho o lugar (o de sempre) me sento, me sossego, me descanso, me sonho. Primeira aula, segunda aula, terceira, lanche, quarta aula, quinta, sexta. Acabou. Acabou? Não.
- Você ainda tem mais meia hora de bônus aqui no espaço que por 11 anos você preencheu com o seu uniforme! Não o desperdice com bobagens, aproveite cada segundo.
Blah.
Volto para casa sob quatro rodas, cansada, esperada, vivida, mas não sonhada. Não há um momento se quer que paro e penso em repensar os meus sonhos. “Não é permitido sonhar aqui, moçinha. Comporte-se, ou serei obrigado a levá-la aos seus superiores. E faça-me um favor, tire esse batom escuro dos lábios, não é permitido usá-lo num ambiente tão certo e definidor de ideias pequenas como este.” “Sim, senhor!”
“Vou me retirar da sala, senhor! Vou faltar senhor... Ou melhor, sentido! Sentido? Não, não! Desculpe-me, senhor. Eu quis dizer... Perdido! Até nunca mais, senhor!”.
...
Acordo noutro dia mudada, mas com o meu mundo mudo. Perdi a voz dentro do meu espaço, não vejo sentido com olhos nem com coração de ficar aqui... Ficar, para quê? Para obter experiência sobre aprender a desaprender a sonhar? Quero conhecimentos artísticos, ouvir as pessoas cantarem, ouvir um pássaro cantar, um poeta em seu momento de drama dramaticamente enlouquecido, um pintor plástico em seu clichê diário. Não quero mais um diário de bordo, para quê? Quem sabe eu possa viver e tirar fotografias ao invés de compor meus olhos e o que se passa por eles com palavras. Que ousadia a minha, me desculpe, senhor!

2 comentários:

  1. Durante 11 anos tentam nos convencer que nossos sonhos são os deles.

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  2. Sentido, sentido... eu ando mesmo sem sentido!

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