quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O show tem que continuar II

Por quase uma semana eu venho observando a minha vida como se fosse parte do público. O espetáculo deixou de ser meu, agora eu apenas admiro ou entristeço conforme o roteiro que segue, aplaudindo sempre que os demais o fazem, sorrindo como todos os espectadores esperando pelo grand finale. E assim, segue.

Dessa forma, pude perceber detalhes que antes passavam imperceptíveis pelos meus olhos castanhos. Sim, hoje eu vi o amanhecer cinzento de São Paulo e ansiei por chegar o quanto antes no trabalho. Encontrei pessoas queridas, fotografei com todas elas, agradeci pelos presentes, mas sinceramente, eu não estava lá. Eu assistia de longe tudo o que acontecia, as vezes julgava uma decisão aqui, outra ali, as vezes não interferia.

Pude notar atitudes que eu tenho com os outros e que nem percebo. Uma palavra dura que as vezes sai sem pensar. Um gesto que fica no ar, esquecido como tantos planos debaixo da cama. Um olhar que deixa de ser trocado por pura vergonha. Que vergonha de mim.

Lá em cima no palco, as luzes focam o meu corpo e o público está ansioso. Eu também estou. Eles querem o clímax. A cena em que eu enlouqueço, em que os cabelos marcam o meu rosto e as palavras rasgam pela minha voz. Eles querem mais.

Só que o espetáculo já acabou. Eles não percebem, mas eu saí da plateia. Estou subindo as escadas e me encontrando no palco. É como encarar o espelho, só que sem moldura e que se movimenta a partir de suas próprias vontades. É estranho. Estou chegando mais perto, os passos ficando mais pesados. Nos encaramos. Ela está tão bonita hoje.

Então ela segura a minha mão, acaricia delicadamente o meu rosto, como uma irmã que tenta proteger a caçula, olha nos meus olhos e diz:

- O show tem que continuar.

Eu não queria, mas sei que devo isso a ela, devo isso a todos. A verdade é que quando saí de mim e passei a observar o que eu faço, pude perceber que o julgamento se transformara em compreensão. Agora eu entendi, disse à ela. Não poso mais me esconder diante dessas cortinas. Você tem razão. O show tem que continuar. Vamos lá. 
 

2 comentários:

  1. Que lindo, acho que as pessoas sempre estão na plateia só querem ver quando estamos no poço, e quando estamos felizes elas fingem não ver.
    beijos

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  2. Era exatamente isso que eu queria passar.

    Fico feliz por você ter lido!

    Beijos.

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