sexta-feira, 9 de novembro de 2012

História: cor de céu em dia quente e tarde fresca

Conheci uma senhora com olhos azuis e cabelo ralo. Seu vestido era da mesma cor que o céu quando o dia era quente e a tarde fresca. Em suas mãos, carregava com muita dificuldade três sacolas de compras, o corpo curvado logo me fez perceber que aquele exercício exigia dela uma força que ela não tinha há anos. Apertei o passo até chegar do seu lado, dei o meu melhor sorriso e perguntei se ela queria  que eu lhe ajudasse. 

Deve ter estranhado essa pergunta, como se nunca tivessem feito antes - talvez por isso ela tenha recusado de primeira. Eu insisti, claro, pois conforme eu fui me aproximando do seu rosto, pude notar que eu já conhecia aquela expressão de algum lugar - aquela senhora morava na mesma rua que eu.

Depois de dizer isso a ela - que éramos vizinhas, ela permitiu que eu a ajudasse. Puxei assunto, falei sobre o tempo e logo o silêncio foi quebrado com o som da sua voz rouca. A senhora gostava de conversar, parecia até que ela não fazia isso a anos. Falamos sobre casualidades, coisas de vizinhos mesmo e quando dei por mim, já estávamos na esquina da nossa rua. 

No portão da sua casa, estava a sua espera uma mulher que também tinha sacolas de compras na mão. Era a mulher mais linda que eu já vi até hoje. Olhos azuis, tão azuis quanto os da mãe, apenas com uma sutil diferença: os olhos da jovem eram vivos, como se eles tivessem opinião própria. Os cabelos pretos, daquele tom que a gente só consegue se passar anos e anos pintando, mas estranhamente, o dela me pareceu natural. A pele era branca, muito mais do que a minha, o que causava um contraste maravilhoso no todo.  Soube no instante em que a vi, que aquela era a filha da senhora.

O que não entendi foi o motivo de ela estar me encarando tanto. Aqueles olhos azuis, ao mesmo tempo em que eram belos, eram cheios de ódio. Ela pareceu não encarar bem o fato de que eu estivesse ao lado da sua mãe, ajudando com as compras. Comecei a me sentir mal, o azul agora estava me arrepiando, causando um misto de sensações ruins, dessas que se misturam no nosso corpo e a gente nem consegue descrever bem. Entreguei as sacolas na mão da senhora e me despedi dela. Acenei brevemente para a jovem e apertei o passo. Eu sabia que ela estava me olhando ir embora.

Decidi contar essa história para vocês, porque eu não consigo tirar a senhora da minha cabeça. Não consigo esquecer os olhos da jovem e se quer entender porque ela me olhava tão feio. Comentei com o meu pai sobre isso e ele reconheceu as duas, justo quando eu fui falar dos olhos azuis. Ele, que mora no bairro desde criança, me contou que a jovem maltrata a própria mãe, por causa do efeito das drogas que ela usa e do álcool que ela ingere. Ele já a ouviu aos berros com a mãe e ela já o parou na rua, para pedir cigarro. Não consegui acreditar. Ela era tão linda, se vocês a vissem, nunca diriam que tem um problema. Meu pai disse que ela não gosta da mãe, por isso a trata como se fosse lixo. Não consigo tirar aquela senhora da cabeça. Sinto que precisava fazer alguma coisa por ela... Mas o que? 

Meu pai pediu para eu me afastar, esquecer esse assunto. A garota mais linda que eu já vi, é perigosa demais e pode me machucar se eu chegar perto da mãe dela de novo. Não sei, mas eu tenho a leve sensação de que eu não vou conseguir ficar parada por muito tempo. Minha memória é muito boa para algumas coisas e quando eu gosto de alguém, não consigo tirar da cabeça e pensar no que posso fazer para ajudar. Estranho, mas essa noite, eu sonhei que tinha olhos azuis.

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