sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

"Palavras? Isso é veneno!"

Carolina soube naquele instante que a sua vida estava por fio. Todos os planejamentos, todos os sonhos e até mesmo as conquistas que já faziam parte da sua rotina foram se juntar com a chuva para nunca mais serem encontrados. Ela estava diante de um espelho, com o cabelo cor de fogo molhado e começando a enrolar de um jeito que sempre quis que fosse naturalmente. Os olhos marcados com rímel incharam conforme as lágrimas encharcavam as pálpebras. Não havia voz ou som entrando naquele banheiro, era apenas Carolina e o seu reflexo no espelho.

Ela sabia que era má. Sempre soube, sua mãe sempre a avisara sobre os modos como ela agia e como isso tornavam-na uma garotinha desagradável. Mas como todas as crianças eram assim, Carolina não via nada de errado em ser também. Aprendeu a dominar as palavras conforme devorava os livros. Sempre carregava um a mais na mochila caso terminasse de ler o outro antes de chegar em casa. Ela conhecia as palavras e quando adolescente descobriu o poder que tinha nas mãos - ou melhor, na voz. 

Percebeu com a rotina que levava e as conversas entre amigas e familiares, aquelas palavras doces que mantinham a paz e deixavam todos por perto. Essas palavras acompanhavam um som, um olhar e era perfeita em ocasiões em que precisava ser gentil. Por outro lado, Carolina também conheceu as palavras frias, carregadas de raiva que costumavam ser ditas aos berros por quem quisesse ferir. Não era necessário muito. Bastava dizê-las e pronto. 

Foi ficando mais velha conforme as folhas secas caíam das árvores. Alguém já parou para pensar no destino dessas folhas? Pra onde elas vão depois que caem? Será que são recolhidas por uma pessoa ou carregadas com o vento pra outro quintal?  O que será que acontece? Carolina nunca se perguntou. Envelheceu e sentiu vergonhas de suas palavras. Era um dom que Deus a presenteou na sua juventude, mas que a moça não soube usar. Estragou relacionamentos com palavras feias, desfez amizades por não dizer as palavras doces e cada dia que passava, Carolina se afastava mais do mundo. Foi ficando pequena, pequena até não ser mais vista por ninguém. Passava e nada. Sua companhia eram os livros, as vozes que existiam dentro dos seus pensamentos e que a mantinham viva. Escrevia para si porque para os outros era doloroso demais escrever.

Na frente daquele espelho, com os olhos de panda e as bochechas vermelha, Carolina desfez-se em lágrimas, até secar. E secou, como uma folha que cai da árvore no outono. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por visitar O Laço Cor de Rosa. O seu comentário é muito importante para mim!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...