sábado, 8 de dezembro de 2012

Quando eu era jovem, mais jovem do que eu sou hoje


Quando eu era mais jovem do que eu sou hoje, eu tinha o costume de acordar cedo e organizar todas as minhas bonecas por tamanho, pegava uma lousa velha, daquelas de criança mesmo e um amontoado de giz - que me faziam espirrar até umas horas - e começava a passar lição para todas. Era essa a minha rotina no auge dos meus sete anos. Por volta das dez horas da manhã, a Maria me gritava pra eu voltar pra casa e tomar banho. Tinha escola a tarde. Eu soltava um suspiro bem baixinho, pra Maria não ouvir. Corria pra dentro de casa junto com a Pandora e deixava as bonecas embaixo do sol. 

A Maria gostava de pentear o meu cabelo e sempre repetia "você é a filha que eu não tive". Eu nunca tinha nada bom para responder, então eu ficava quietinha, deixando ela escovar quantas vezes fosse preciso - até ela ter certeza de que não tinha mais nenhum nó. 

Eu esperava a perua na frente de casa, embaixo de uma árvore que tinha flores cor-de-rosa tão pequeninas que eu quase não notava. Fui lembrar delas só depois dos dezesseis. Como a gente sente falta dos detalhes quando cresce!

O tio chegava atrasado e as crianças berravam tanto no carro, que eu já chegava na escola com dor de cabeça. Era irritante: os mesmos choros, as mesmas respostas, as mesmas atitudes que levavam qualquer um a loucura. Criança é fogo. Curioso como a gente esquece que também já fez birra nessa idade. 

Chegava na escola e ia direto pra sala. Gostava de sentar no meio, assim eu tinha uma visão privilegiada da lousa e todos os meus amigos em volta. Conversava pouco, quase sempre preferia ficar no silêncio. Não tinha muito o que dizer, nada acontecia que fosse relevante. Sempre tinha um livro embaixo da minha carteira. Era na época dos bilhetinhos... Ah! Quantos bilhetinhos eu já passei e já recebi quando criança...

Voltava pra casa por volta das seis, tomava um banho e ia brincar com as minhas bonecas até a hora do jantar.

As vezes bate uma saudade da infância, daquela rotina sem preocupações, da minha franja e dos cabelos escuros, das lambidas carinhosas da Pandora, da ternura imensurável da Maria... Tanta coisa que a gente vive e depois passa, não é mesmo? Mas deve haver um sentido por trás disso. Um motivo maior, uma questão que só há Deus pertence. Queria entender, de verdade. Por que tantas pessoas passam por nós, se elas não têm o ideal de ficar? E por que elas vão embora, quando o melhor da vida ainda está por vir?

O que há de tão belo na saudade?

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