quarta-feira, 27 de março de 2013

A primeira página de uma história de vinte anos


Maria Luisa gostava de tomar praticamente todas as decisões da casa - ela era quem cozinhava durante a semana, arrumava a cama dos meninos depois que eles iam para a escola, trocava a água da Lucy, a poodle, antes de ir trabalhar. Cristiano, seu marido, era mais relaxado. Gostava de criar pratos elaborados nos finais de semana e chamar os amigos dos seus filhos para passarem a tarde juntos. Em seus momentos mais íntimos, Cristiano era silencioso e pensativo - talvez tenham sido essas as características que mais chamaram a atenção de Maria Luisa a vinte anos atrás. 

Os dois se conheceram num baile. Cristiano não estava muito a fim de ir, queria ficar em casa lendo um livro, mas o seu amigo o convenceu do contrário. Escolheu uma camisa lisa no armário, passou um perfume, penteou os cabelos e por último, lavou o rosto para disfarçar o cansaço. 

Maria Luisa esperava por essa festa a meses. No dia em questão, ela passou horas na frente do espelho ajeitando a franja e escolhendo o melhor vestido. Em menos de três horas, a bela jovem estava pronta para o baile.

A música estava alta e todos estavam animados. Era a festa do ano. Cristiano já não aguentava mais a barulheira, queria voltar pra casa o quanto antes. Pediu licença ao amigo (que já estava embalado pelo som e pelas garotas) e foi procurar um drinque. 

Encontrou na mesa de bebidas, uma garota tão sorridente que ficou com medo de que o brilho do seu sorriso ofuscasse os seus olhos. Os cabelos dela eram pretos como o breu, exceto pelo fato de que aqueles fios não o assustavam tanto quanto a escuridão. A cintura era fininha, parecia até essas modelos que a gente vê em revista. Cristiano nem percebeu quando a garota o olhava estranho, como se procurasse entender o porquê dele estar encarando tanto ela. Será que eu manchei o vestido?, ela pensou.

Depois do constrangimento imediato, Maria Luisa sorriu para o garoto estranho e ele sorriu de volta. Ofereceu a bebida que estava em suas mãos, mas ela recusou.

Essa foi a primeira página de uma história que hoje completa vinte anos. Recordando esse momento, Maria Luisa se segura para não chorar, mas não há nada que contenha a enxurrada de lágrimas que se seguem depois de tantas lembranças. Cristiano, que está sentado ao seu lado com o braço em volta do seu corpo, se emociona, mas não da mesma forma. Ele retém as lágrimas - até por não saber lidar com elas, mas aperta a mão de Maria Luisa com força, como se assim, estivesse agradecendo por todos os anos que ela aguentou a sua chatice.

Maria Luisa entende o recado e retribui com um aperto mais suave, querendo dizer "obrigada por aguentar as minhas manias", e Cristiano entende. Os dois fecham os olhos num momento de súbita entrega e reconhecimento do amor. As vezes, a lembrança é a única coisa que nos mantém vivos. Os filhos vão embora, as pétalas se desmancham e caem na terra úmida, os amigos mais próximos moram do outro lado da cidade. Eles tinham um ao outro e naquele instante, que não durou mais do que cinco minutos, ambos reconheceram a importância vital que um fazia na rotina do outro. O amor, meus queridos leitores, é assim. Ele nos mantêm aquecido por longos anos, mas raramente nós fazemos caso dele. Esquecemos que o amor deve ser cultivado como uma rosa, para que quando as crises chegarem - acredite em mim, elas vão chegar - nada se perca no caminho. Nenhum milésimo de amor. Nenhuma pétala no chão.

Era essa a história que eu queria contar a vocês. Eu a criei, os personagens são fictícios, mas tive como base as personalidades e o primeiro encontro dos meus pais. Tentei representar a maneira como eu os vejo e também, a maneira como eu queria que um se sentissem em relação ao outro. Outras conclusões são por sua conta e imaginação. 

4 comentários:

  1. Que lindo! Ameeei gente que fofura *-*
    Ana sempre divando com seus textos.
    Parabéns <3

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  2. Lindo demais!! Parabéns pelo excelente -como sempre- texto, Carol!

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