quarta-feira, 6 de março de 2013

Faz falta


Desde que eu me lembro, eu sou tímida. Não consigo me apegar a alguma memória onde eu me sentisse confortável num ambiente com muitas pessoas. A verdade é que eu sempre fui assim, mas na minha infância isso foi bastante acentuado. Eu gostava de ficar sozinha com as minhas bonecas e quando elas "dormiam", eu me enfiava em alguma história de um livro de aventuras e passava horas assim. Uma companheira de todas as tardes era a Pandora. Pra ser sincera, ela é a lembrança mais viva que eu tenho dessa época - em que eu pesava uns quilinhos a mais do ideal e as outras crianças me achavam estranha.

Estou num momento nostalgia da minha vida. É claro que eu vivi apenas dezoito primaveras, o que não quer dizer muito diante dos céus. Mas eu aprendi nesse pouco tempo, que nada é permanente. Parece cliché, óbvio e até mesmo dramático, mas só hoje eu me dei conta. Conheci uma pessoa quando eu era criança e  ele era tão legal comigo que eu comecei a chamá-lo de tio. Os seus filhos passaram a ser os meus aluninhos, e todo o dia depois da escola, eu juntava as crianças e as ensinava a somar. Era uma atividade gostosa, eu me divertia e eles também. O meu tio postiço assistia a tudo de longe, com um sorriso no rosto. Eu, envergonhada como era, fingia que não era pra mim, mas eu sabia o quanto ele estava orgulhoso por eu dar ao seus filhos, uma atenção que ninguém se ofereceu antes.

No mês passado, o meu tio faleceu. Ele sofreu um acidente de moto, perto da casa dele. A notícia logo chegou aos ouvidos da família. Eu lembro que nesse dia, eu estava numa chácara com o meu namorado, aproveitando o final de semana ensolarado. Também me lembro, que eu falei com o meu pai por telefone, mas ele não me contou nada sobre o acidente. Minha mãe tinha tentado falar com o meu sogro, mas não conseguiu. 

Cheguei em casa de noite, depois de algum tempo na estrada e a minha primeira vontade era de deitar na minha cama e dormir - foi quando a minha mãe entrou no meu quarto e disse "tenho uma notícia pra te dar". Na hora eu pensei "cadê o meu pai?", mas antes que eu pudesse emitir qualquer som, minha mãe continuou "o tio Genivaldo morreu". 

Assim. Ele morreu. Sem enrolação, sem conforto. Apenas a notícia. Lembro que eu senti as minhas mãos tremerem e lembro de ter chorado, pedindo a Deus que não deixasse as crianças do tio sem amparo. Depois disso, as lembranças se distorcem um pouco. Não sei se eu já contei pra vocês, mas a minha memória é péssima - guardo nomes e lugares, mas tenho uma dificuldade enorme de guardar conversas e ações. Acho que eu liguei pro meu namorado, mas eu não tenho certeza. 

Fui pela primeira vez num enterro. Olhei para tantos rostos tristes naquela manhã, que só de pensar eu tenho vontade de me aninhar na cama e esperar a lembrança ir embora. Ouvi choros, murmúrios, lamentos e também vi a minha prima sem reação. Parecia que ela não estava lá. Cada um sente de um jeito, não é mesmo?

Tudo isso passou na minha cabeça como num filme sem legenda ou trilha sonora. Passou e já se perdeu nos milhares de pensamentos que eu tive hoje. Gostaria de dizer que irei me lembrar desse dia, desse sentimento a vida toda, mas tenho muito medo de que a realidade seja outra. Acho que depois de um tempo - um longo tempo, a dor deixa de incomodar. Deixa de ser uma coceira incessante e se transforma aos poucos, na saudade- e essa, por sua vez, parece que virou a minha sombra. Olho para o céu e imagino o meu tio e tantos outros anjos que estão sobre as nuvens. Penso na família e nos amigos que ficaram, assim como eu, esperando uma resposta. Esperando um significado, uma explicação. Qualquer coisa, por favor...

Esse texto é um desabafo. Provavelmente, você foi um dos poucos leitores que o leu até o final. Sendo assim, obrigada. Usar o seu precioso tempo para ler os meus pensamentos foi a melhor coisa que alguém já fez por mim. 

7 comentários:

  1. Acho a morte tão estranha. Como alguém de uma hora para outra morre? Principalmente nesses casos que defino como: vida interrompida. Porque o certo é morrer bem velhinhho, quando a carcaça cumpriu o seu papel natural e começou, aos poucos, a se desligar. Sem dor. Dormindo. Mas infelizmente a vida não é assim. Então, vivamos. Não sabemos quanto tempo ainda temos. E estamos – todos – condenados a única certeza de quem vive: a morte.
    Já a tristeza, com o tempo, passa. É difícil, mas passa. Depois, restarão a saudade e as lembranças de uma história que perpetuarão encravadas no espaço em algum lugar do tempo, que se chama coração.

    Nelson

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    1. Suas palavras estão cheias de sabedoria. A morte é algo que eu nunca vou compreender, mas tenho que aceitar, pois faz parte da vida. Faz parte de um plano muito maior do que eu, uma simples mortal. Obrigada por passar aqui!

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  2. Mt triste neh? Entendo seu pensamento...tb perdi mta gnt querida...e o sentimento eh p msm tanto pra bicho qnto pra gnt...sempre vou me perguntar o pq. E eh isso q nos torna humanos. Bjs, Li

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  3. É assim que se começa a escrever Ana, colocando nossos pensamentos no papel, que belo!

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  4. É Ana, você disse que esse foi o seu primeiro enterro, e pelo que vejo, você não era tão nova pois já namorava e tal... Eu não tive essa mesma sorte, já vi alguns (não poucos) enterros durante minha vida, alguns de pessoas realmente próximas, e outras de parentes distantes. Mas para mim, e aposto que não sou a única, a morte é uma coisa tão sem explicação quanto o tamanho do universo. Às vezes paro para pensar nela, e acabo ficando "louca", pois são zilhões de perguntas sem respostas! Perguntas do tipo "Por que ela(e) teve que ir?" "Por que tão novo?" "Quando será a minha vez?" "Como vou me sentir?" (Sim, sou meio louca, meio filosófica, meio sei lá, haha). E quanto mais passa, mais você tenta se preparar pra tal notícia... mas por experiência própria digo que a gente nunca está preparado! Talvez meu comentário tenha ficado sem sentido (o que até faz sentido, se tratando do "fim"), mas bem, acho que é isso, basta a nós que "ficamos por aqui" aceitar e ficar com a saudade daqueles anjos que voltaram ao lado do Pai.

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    1. Aconteceu no início desse ano, foi um choque muito grande pra mim e assim como você, comecei a refletir sobre esses questionamentos que uma hora ou outra nos alcançam pelos caminhos da vida - e assim como você, fiquei sem resposta, perdia o fio da meada cada vez que criava uma teoria, qualquer coisa para explicar o motivo, a razão, a emoção por trás de toda a dor. Enfim, depois de muito pensar e chorar, me dei por vencida, aceitando que as vezes, o melhor que podemos fazer é fechar os olhos e orar por essa pessoa que sentiremos saudades, pela sua família e por todos os amigos. É difícil, Rhaíssa, mas num determinado momento, a dor deixa de ser invasiva e se torna uma lembrança. Eu só não quero esquecer a voz do meu tio, meu tio que não era de sangue, mas eu o amava como se fosse.

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