domingo, 17 de março de 2013

Júlia e o seu monstrinho


Júlia tinha olhos castanhos, mas esse era um detalhe pouco notado, pois olhos castanhos não chamam a atenção - ainda mais quando estão escondidos por uma franja. Júlia não gostava de ser notada, mas eu preciso dizer: ela era bonita. Oh, sim, com toda a certeza, ela era bonita. Os cabelos eram escuros como jabuticaba, as mãos eram delicadas - assim como os seus gestos. Ela gostava de ler e fazia isso com uma frequência absurda - até mais do que comia. Júlia tinha poucos amigos, não por não gostar das pessoas, muito pelo contrário, ela buscava sempre entender o pensamento dos outros - mas por não conseguir manter uma conversa com alguém por mais de cinco minutos. Ela era tímida, daquelas que desviam o olhar quando vão falar com alguém, que cruzam os braços e mordem os lábios quando se sentem deslocadas. 

Por muito tempo, a sua timidez era irrelevante, nada com que ela se preocupasse ou se sentisse diferente por não conseguir ser a mesma pessoa que era em casa e com os amigos próximos - para ela, ser retraída era normal. Isso mudou quando Júlia percebeu o quanto estava perdendo por ficar de boca fechada nos momentos em que poderia expor o seu maravilhoso mundo. Ela tinha vontade de falar, mas algo a fazia se calar instantaneamente. O que poderia ser, meu Deus? Medo de rirem do que ela falasse? Ou de contradizerem as suas palavras e a constrangerem em público? Ser o centro das atenções, quando na maioria das vezes ela tinha vontade de sumir?

Não sei. E ela também não sabia, mas isso ficava por horas na cabeça dela. Ela queria muito se desfazer da timidez - esse pequeno monstrinho que domina as cordas vocais, faz as mãos tremerem e traz o incômodo mesmo nos lugares mais bacanas do mundo - mesmo inclusive, com as pessoas mais bacanas do mundo. Júlia não queria mais ser assim. Estava começando a deixar de fazer muitas coisas, de falar e aprender tantas outras, que ela queria mudar logo. Deixar esse monstrinho de lado e se mostrar ao mundo. Mostrar a sua poesia, os seus livros, os seus personagens favoritos, os seus gostos, enfim, tudo o que fazia ser ela. Cada detalhe.

Mas por mais que ela se esforçasse, era  inútil. Ela não conseguia melhorar e quando conseguia, era aos poucos. As vezes, demorava meses. Era difícil se desfazer com algo que ela estava tão acostumada. E então ela chorava. Chorava por ser quem ela era, chorava por ser julgada toda hora pelos seus pais, chorava por deixar o seu namorado bravo num domingo a tarde por sua timidez incômoda e irritante, chorava por se sentir nervosa e dizer absurdos que não tinham como serem apagados, chorava por querer tantas vezes ser outra pessoa. 

No entanto, o que mais a fazia se sentir triste era encontrar o olhar dos outros e perceber que para eles, essa tal timidez que ela tinha, não passava de uma grande besteira.

4 comentários:

  1. Um dia ela se encontra,e isso vai ser tão natural,q ela mesma ñ vai perceber q deixou o monstrinho de lado,até ele desaparecer...

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  2. Não sabia que você também é fabricante de estórinhas, me surpreendeu.

    Tem vezes que me sinto como Julia. Tenho vontade de cavar um buraco e morar nele pra sempre. Mas a cada dia conheço mais do meu monstrinho e aprendo a conviver com ele. Tenho certeza que todo mundo tem o seu um monstrinho, o essencial é ter domínio sobre ele.

    Nelson mais essa

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    1. Eu me sinto como Júlia na maioria das vezes. Dói, dói muito saber que esse monstrinho não vai embora nunca... Mas quem sabe, um dia, ele suma - já que não soma de jeito nenhum!

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