quarta-feira, 3 de abril de 2013

Maria, vem cá, tenho uma coisa pra te contar...


A verdade, Maria, é que a perfeição machuca. Ela nos rodeia o dia inteiro, até o momento em que a gente se irrita e a encara, mas eu sempre perco a luta. Ela me vence de lavada. Consegue lembrar de cada coisa que eu fiz, que eu nem lembrava mais. Aponta o dedo pra mim e diz o que eu fiz de errado, como se eu fosse uma máquina que não funcionou direito. Guarda na memória todas as minhas frases, os meus discursos na hora da discussão e depois os joga em cima da mesa, de modo que eu, desarmada, tenho que encará-los sem hesitar. Faz eu acreditar que eu nunca mudarei, que eu serei sempre desse jeitinho torto que machuca todo mundo. Mas depois que a raiva passa, a perfeição se acalma também... ela volta mansa, como uma amiga que quer ajudar, e diz que eu posso tentar de novo. Enquanto eu, ainda em lágrimas, tremores e com o coração na mão, acredito nela. Acredito, pois sei que é isso que as pessoas esperam de mim. Não todas, claro. Apenas as mais próximas. Então eu faço isso por elas. Acredito que eu posso mudar, porque do meu jeito eu nunca vou ser levada a sério. O que fica de mim nos outros, costuma ser a minha timidez aparente que poucos conseguiram ultrapassar, a ansiedade imatura que perde a graça no meio do caminho, a frieza na hora da raiva e o apego às palavras duras, que de vez em outra faz alguém chorar. Ninguém se lembra da amizade incondicional, do amor acima de qualquer outro compromisso e sentimento, das horas em que lutei para dizer algo bom, algo que confortasse. Não, nada disso importa. A perfeição ganhou mais uma vez. É impossível vencê-la, mas se quer saber a verdade, Maria, é que eu não a procuro mais e também não quero que a procurem em mim. Vou continuar lutando e isso não vai mudar tão cedo - mas a cobrança acaba aqui, nesse último ponto final. 

3 comentários:

  1. Dizem por ai que a maturidade traz esta segurança de saber o que se está fazendo, mas sinto desapontá-la todos os dias na infância, na juventude, na maturidade, na velhice, tem sempre alguém querendo mais do que você pode oferecer.Fala pra Maria largar do seu pé.

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    1. Então é verdade, acho que essa é mais uma daquelas constantes na nossa vida, não é mesmo? Bom, mas quem sabe, agora, eu aprenda a lidar com essa cobrança sem muitos efeitos colaterais? Vou dar o recado a Maria. Hahaha.

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    2. Gostei muito do texto, as palavras definem muitas coisa que acontecem comigo.
      "Guarda na memória todas as minhas frases, os meus discursos na hora da discussão e depois os joga em cima da mesa"

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