quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sobre as asas do Peter Pan


Fernanda entrou na biblioteca do seu avô sem fazer barulho, caminhando na ponta dos pés para não acordar ninguém - já se passava das onze horas, todas as luzes estavam apagadas e a menina podia contar apenas com o seu coração para encontrar a porta certa. Era um cômodo enorme, mais com poucos detalhes: uma mesa cheia de papéis, uma luminária e alguns lápis ficavam no centro, enquanto que todas as paredes eram preenchidas por fileiras e mais fileiras de livros. 

Por algum motivo que ainda não sabia direito, o avô de Fernanda não a deixava entrar na biblioteca sem a sua permissão. Dizia que aquele espaço poderia ser perigoso e que alguns livros, poderiam levá-la a mundos distantes, difíceis de fazê-la voltar à realidade, e que por ser muito pequenininha, as palavras poderiam confundir a sua cabeça, deixando-a maluca! Ora, que ideia - pensava Fernanda - eu já tenho dez anos, posso muito bem escolher um livro pra ler sem ser obrigada a fazer parte dele, o vovô que é o maluco dessa história!

Com medo de que alguém descobrisse a sua desobediência, Fernanda fechou a porta suavemente e acendeu a luz da biblioteca. Ela mal podia acreditar no que os seus olhos verdes mostravam: dezenas e mais dezenas de livros, separados por cores e por assunto, amontoados e organizados, empoeirados e alguns com o plástico em volta. Eram livros que não acabavam mais. Dentre eles, Fernanda encontrou o que estava procurando. A história do Peter Pan lhe chamara a atenção a alguns dias atrás, quando encontrou a Paula, sua amiga, lendo as peripécias do garoto que não queria crescer. Desde então, esse livro despertou a curiosidade da Fernanda... porque esse tal Peter Pan gostava tanto de ser criança? Cadê a mãe dele, que não o obriga a fazer as lições de casa? Que história é essa de fada que dá asas para os meninos? 

Nada disso fazia sentido. Aliás, fazia, mas não se encaixavam no mundo em que Fernanda estava acostumada a viver - nesse, não existiam fadas e todas as crianças se tornavam mais cedo ou mais tarde, um bando de adolescentes mal humorados e cobertos de espinhas. Acreditar na magia que tantas vezes ouvira  a Paula contar no intervalo exigia um esforço danado para a Fernanda. Foi por isso que ela decidiu ler a história, para ver se assim, entendia melhor o que é que o sujeito Pan queria dizer. 

Pegou o livro na fileira mais baixa, sentou-se na cadeira do avô, acendeu a luminária e começou a ler. A cada página que lia, Fernanda se encantava cada vez mais com as palavras e as ilustrações - se bem que a segunda não era tão útil, pois a imaginação da garota já trabalhava por conta própria. Sem perceber as horas passarem e o barulho que involuntariamente fazia, Fernanda acabou despertando o seu avô de um sono profundo, que estranhando os ruídos vindos da biblioteca, aprontou-se rapidamente para descobrir o que estava havendo.

Ao ser pega em flagrante, Fernanda não sabia exatamente o que fazer: pensou em pedir desculpas, mas em momentos como esse, o melhor era ficar calada, e então decidiu esperar uma atitude de seu avô. Ele a olhou docemente em seus olhos, depois, visualizou o livro e sorriu disfarçadamente para a sua neta. Ele sabia que não tinha mais nada a ser feito: Fernanda havia conhecido o mundo dos livros e agora não sairia mais dele. 

Olhou mais uma vez para a neta e fechou a porta, como se nem tivesse estado ali. Fernanda estranhou a atitude do avô, mas apenas por alguns segundos, até que toda a sua atenção se voltasse novamente para o livro. Peter Pan ainda tinha algumas histórias para contar e com um breve sorriso, Fernanda abaixou os olhos e sorriu, ao se dar conta de que assim como o Peter, se estivesse com um livro em mãos ela também poderia voar. 

Um comentário:

  1. Amo Peter Pan, não canso de ler/assistir :3

    http://hopelesstha.blogspot.com.br/
    <3

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