sábado, 15 de junho de 2013

Um desabafo na madrugada


Acordei ao som de resmungos vindos da cozinha - a parede de casa é fina, então deu pra ouvir muito bem, como se eu estivesse ao lado dele.  

Estava um pouco sonolenta, era por volta das sete e quarenta da manhã. Fiquei brava por acordar tão cedo, ele sabe que eu não suporto barulho enquanto estou dormindo, mas dessa vez parece que não deu pra evitar.

Resmungos, chiados, xingamentos. Tudo bem baixinho... mas sonoro o suficiente.

Eles vinham do meu tio. Ele estava reclamando da vida, do quanto era infeliz, do quanto as pessoas que estavam em volta dele o deixavam infeliz. Ele desejou por um segundo não ter voltado pra casa naquele dia, ter passado o resto da sua vida vivendo de favor na casa de um amigo - tudo era melhor do que a sua própria casa, a sua própria família. Qualquer coisa era melhor do que encarar os seus problemas diante dos olhos dos seus irmãos, dos seus sobrinhos, do seu reflexo.

E eu lá, no quarto ao lado, ouvindo tudo - meio sonolenta, é claro, mas consegui guardar essas poucas palavras. 

Depois de uns cinco minutos os resmungos pararam e eu já não tinha mais vontade de dormir. Ouvi passos caminhando pelo corredor, ligeiros, indo direto ao banheiro. A porta foi fechada, o "clic" anunciou que a luz estava sendo ligada. Mais barulho - com uma única diferença: dessa vez não eram resmungos, chiados ou xingamentos. Era um choro. Um choro daqueles que a gente abaixa a cabeça, em respeito a pessoa que está chorando. Daqueles que nos emocionam de tão cortantes que chegam ser. Aquele choro que a gente só identifica por causa das lágrimas e claro, por causa dos suspiros longos e abafados.

Ele estava chorando. Estava cansado de resmungar tanto. Estava desolado, pois não via saída. 

Tudo isso se passou em menos de meia hora. Todo esse enredo aconteceu dentro da minha cabeça coberta pelos lençóis e aconchegada pelo travesseiro. Tudo foi sentido pelo meu tio como se não houvesse mais ninguém, mas eu estava lá e ouvi tudo. Fiz parte da cena, mesmo sem querer. 

São nesses momentos em que anseio por sonos mais pesados. Passei grande parte do meu dia pensando nesse acontecimento, nesses sentimentos derrotistas que passaram pela cabeça do meu tio. Busquei em oração uma ajuda que pudesse levar sossego a ele, algo que tirasse toda a mágoa para dar espaço a um novo amanhecer. Qualquer coisa, pedi a Deus. 

Em questão de horas, (nesses momentos em que ficamos olhando fixamente para um lugar), acabei lembrando de um bom e velho conselho que o meu irmão tinha me dado quando eu era mais nova: quando alguém está triste, o melhor que temos a fazer é não fazer nada. Deixe a pessoa ficar assim o tempo que achar necessário e conveniente - e assim que estiver preparado, ela procurará alguém para desabafar e se esse alguém for você, então seja todo ouvidos. Nada de tentar colocar os pingos nos is. Apenas deixe a pessoa desabafar. 

Bom, acho que esse foi o caso que aconteceu hoje cedo. Um desabafo. Um desabafo do meu tio ao teto, ao chão, às janelas, às paredes, ao silêncio da madrugada. O seu único conforto, era saber que estava sozinho. Ou quase.

2 comentários:

  1. Seu irmão tem toda a razão =D
    Deixe baixar a poeira..
    Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tem mesmo, não é?

      Obrigada, Camila...

      Excluir

Obrigada por visitar O Laço Cor de Rosa. O seu comentário é muito importante para mim!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...