terça-feira, 17 de setembro de 2013

A verdade


Certa vez, durante uma aula de poesias, a professora comentou que os poetas gostam de escrever quando estão tristes, melancólicos. Isso porque tais sentimentos afloram na pele e tornam o desabafo mais fácil. É trabalhoso escrever quando estamos felizes, sem nada que possamos lamentar. Lembro que eu discordei desses pensamentos, pois desde os doze anos eu escrevo quando estou feliz, quando sinto o coração batendo forte no peito e a ansiedade dominando os meus movimentos. Sempre foi assim. Até hoje. 

Não sei por onde começar, então antes que esse parágrafo termine, gostaria de adiantar um pedido de desculpas pelas linhas futuras. Nunca fui a fã número um - muito menos a número cinquenta da gramática, mas sempre a respeitei. No entanto, é possível que hoje eu cometa alguns desvios da norma padrão, que podem ser devidamente explicados pelas lágrimas que acompanham cada piscar de olhos. Pontuar e acentuar serão tarefas árduas. Agora vocês já sabem.

Tenho dezenove anos, convivo com pessoas com sobrenomes diferentes do meu desde os cinco. Em todos esses anos, posso dizer que já confiei em cinco pessoas. Cinco sobrenomes distintos. Cinco apelidos. Cinco cabelos diferentes, uns mais lisos, outros bem enrolados e marcados. Cinco possibilidades. 

Desse número tão singular de pessoas, apenas duas seguiram o mesmo caminho que eu - e aqui, não quero que entendam esse "caminho" como "profissão", mas sim, como laços que mantivemos mesmo depois de alguns anos de convivência, quando os defeitos deixaram de ser novidade e as qualidades começaram a passar despercebidas. As outras três, certamente atravessaram a esquina e desde então, nossos "caminhos" não se cruzaram. 

Quando conhecemos muito bem uma pessoa, aprendemos a conviver com o seu jeito, a lidar com os famosos "defeitos de fabricação". Algumas são exageradas e dramáticas, outras são distraídas, mas por trás dessas variações tão únicas, há traços e mais traços de comparação. Aquela garota dramática pode até exagerar ao contar uma história, mas fora isso, tem um coração enorme, gosta de ajudar os outros, se preocupa com o bem-estar dos que estão a sua volta e não tem medo de errar. O menino distraído se esforça muito mais do que o restante das pessoas em prestar atenção quando alguém fala com ele, sabe respeitar o espaço do outro e nunca impõe as suas opiniões. Ambos são tão diferentes, tão únicos, que nem mesmo se eu conhecesse cem pessoas encontraria pelo menos uma que fosse parecida com eles. Quando estamos juntos, não há drama e muito menos distração que possa diminuir o valor que eles têm como amigos. 

Esse foi apenas um exemplo, do quanto as pessoas podem ter "defeitos de fábricas" e mesmo assim, serem boas para nós. O problema é que esquecemos de lembrá-las o quanto elas são especiais em nossas vidas. A convivência torna tudo tão simplório. É difícil encontrar um momento bom para uma declaração de amor ou de amizade verdadeira. Somos tão bons em olhar as imperfeições que as qualidades ficam escondidas embaixo do tapete. É exatamente disso que eu sinto mais medo em minha vida.

Sinto medo de ser apenas uma garota tímida. Sinto medo de ser singularizada por essas seis letras que nunca me trouxeram nada de bom quando estão juntas. Sou tão mais do que isso, e não é nenhum egoísmo da minha parte admitir - eu sei que eu sou. Cansei de esperar que os outros reconhecessem o que eu me esforçava tanto para ser a eles. Faço o possível para ajudar, os segredos confiados a mim nunca foram ditos nem julgados, as palavras jogadas sem pesar as consequências nunca foram mal interpretadas, jamais deixei que a minha trava com a expressão "eu te amo" impedisse qualquer outra demonstração de afeto. 

Cronologicamente, não sei muito bem quando isso começou. Historicamente, lembro-me que foi na primeira vez que me olharam com nojo por ter espinhas cobrindo todo o meu rosto. Lembro das risadas, lembro da visita ao cabeleireiro no dia seguinte, lembro do calor insuportável que passei a sentir através do suor que escorria embaixo da franja. Comecei a me fechar para o mundo. Quer saber de uma coisa? As pessoas podem ser muito malvadas com poucos recursos. 

É claro que já sou bem grandinha e não vejo mais a timidez como um bicho de sete cabeças. Aprendi a lidar com ela graças ao meu irmão, que sempre teve paciência comigo. Busquei alguns métodos que funcionam muito bem, mas vamos deixá-los para outro texto. Hoje, não sou mais tão reservada como eu era a cinco anos atrás, mas mesmo assim não deixei de ser. 

Escrevo isso, pois hoje me senti reduzida a terrível timidez. Senti na voz de outra pessoa que eu sou isso, como se eu fosse apenas o meu "defeito de fabricação". São tantas discussões que nem vale a pena listá-las. No final das contas, as qualidades ficaram embaixo do tapete e o que sobressaiu é o que eu não fiz, o que eu não sou.

É claro que eu não culpo ninguém, pois a verdade é que todos nós somos assim. Então, esse texto é um lembrete para mim mesma - para que eu jamais me esqueça de que as pessoas são muito mais do que os seus medos.

É tão difícil admitir e escrever sobre isso. Não sei mais o que contar, então talvez esse seja um dos últimos pontos finais. Me sinto melhor agora, depois de palavrear a minha angústia. Agora, o que eu mais quero, é encontrar em mim algo mais do que aquelas seis letrinhas com as quais fui rotulada. 

Leitor, você que chegou até aqui, ansiando por um desfecho, sinto muito por decepcioná-lo. 

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