sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Cor de Nutella


Os seus olhos foram o que primeiro chamou a minha atenção. Não, não eram azuis e muito menos verdes como você poderia erroneamente imaginar, querido leitor, eram castanhos como os meus, como os dos meus amigos e como os dos meus professores, se não fosse um detalhe que os tornassem únicos: eu me lembrava do pote de nutella que tinha em casa, toda vez que eu disfarçadamente observava a sua íris. Estranho, eu sei. Mas me atrevo a dizer que há poucas coisas normais em meus pensamentos, principalmente nas relações que faço entre o que eu conheço e o que é novo, como os olhos de nutella.

Marcelo era o seu nome. Acabei descobrindo quando por acaso, ele veio até a minha mesa e se apresentou, dizendo que seria o meu parceiro no projeto de biologia, por escolha voluntária da professora Rosane. “Ok”, eu disse. Mas por dentro, bolava um plano para me aproximar cada vez mais dele, percebendo aos poucos, que a minha pequena metonímia havia se transformado em algo muito maior.

Com o passar dos dias, Marcelo e eu ficamos amigos. Não houve, é claro, um aperto de mãos ou sei lá, algo que concretizasse essa nova fase – simplesmente, passamos mais tempo juntos do que com os outros colegas da sala. Para mim, ele havia deixado de ser um cara com olhos cor de nutella para ser o meu amigo, o meu confidente e causador de um grande alvoroço em meu estômago. Evitava comer perto demais do Marcelo, pois sabia que só de estar próxima, tinha aquela maldita sensação de borboletas voando – e como eu não conhecia nenhum jeito de ignorá-las, eu as deixava naquele rebuliço, sabendo que horas depois, sentiria fome durante a aula.  

A sua presença constante nas minhas manhãs fizeram com que eu reparasse noutros detalhes, tão sutil e marcante como os olhos de nutella. Marcelo tinha, por exemplo, uma pintinha logo abaixo da sobrancelha. Sempre que ele franzia o cenho ou fazia aquela cara desconfiada que os policiais fazem nos interrogatórios (assisto muitos filmes com o papai) sua pintinha se mexia junto, como se quisesse fazer parte do momento. Tinha também mãos fortes e cheias de calos, dizia ele que era porque ajudava a mãe com os afazeres de casa. Achei estranho um garoto admitir tal coisa, mas para ele era natural, pois não sentia vergonha disso. E eu, claro, me senti forçada a admirá-lo um pouquinho mais.

Um certo dia, igualmente parecido com todos os outros dias que se arrastavam na escola, Marcelo me perguntou, praticamente aos sussurros, se eu poderia apresenta-lo a uma amiga minha, a Gabi, que morava na minha rua e participava de todas as atividades comigo (com exceção do trabalho de biologia). No primeiro instante, senti aquelas indesejáveis borboletas no estômago, para depois sentir uma ligeira tremedeira nas mãos e uma vontade estranha de piscar os olhos. Olhando para aquele momento, devo ter ficado uns dez segundos estática, levando todo esse tempo para processar a informação. Enquanto isso, os olhos cor de nutella não paravam de me observar, esperando ansiosamente pelo meu “sim”.

Sim, é claro que eu o apresentei a Gabi. Sabia que no fundo nós éramos apenas amigos. Para ele, eu era a boa e velha Alice, parceira de biologia, ombro para toda e qualquer lamentação (não que ele lamentasse muito), conselheira emocional. Meus olhos estavam longe de ser uma metáfora para o meu querido amigo Marcelo.

Depois de um breve suspiro, saí de cena. Fiquei dias e dias buscando uma reaproximação com o meu amigo – pois agora que ele conhecia a Gabi, e digamos que eles se entenderam até que bem demais, ele não fazia mais tanta questão da minha companhia. Não que ele tivesse se cansado de mim ou algo do tipo, nada disso, mas já não tínhamos mais assunto.


E então, quando numa manhã de outubro minha mãe me deu a notícia de que viajaríamos para o norte, afim de ficarmos mais perto dos meus familiares, fui de encontro a Marcelo, e disse, “estou indo embora, Ma. Minha mãe quer que eu vá com ela visitar alguns parentes, pode ser que eu fique por pouco tempo, pode ser que eu me mude para lá. Não está nada certo. De qualquer modo, não poderia deixar de me despedir de você. Até mais. Sentirei saudades, sabe. Principalmente dos seus olhos cor de nutella". 

Dei um abraço apertado no meu amigo e primeiro amor, me afastei lentamente – da mesma forma como abri os olhos até encontrar os dele. Mantive o olhar, forçando o meu cérebro a guardar todos os detalhes, não me esquecendo da pintinha logo abaixo da sobrancelha. Obviamente, Marcelo não entendeu o que eu quis dizer com “olhos cor de nutella”, pois estava franzindo a sobrancelha. Achei melhor deixá-lo assim, incerto da minha pequena figura de linguagem.

8 comentários:

  1. Que texto lindo Ana, você escreve muito bem. Eu adoro seu blog conheci ele há pouco tempo, e foi a minha inspiração para criar o meu. Também escolhi letras, e estou aguardando ansiosa o resultado da ufg. Meus parabéns pelo blog, estarei sempre acompanhando! Beijos

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    1. Oi,Ana! Poxa, muito obrigada pelo carinho! Fico feliz que você acompanhe o blog, viu? Ah! E boa sorte no curso! Tenho certeza que vai amar!

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  2. Profundo e fofo olhos cor de nutella.

    Bjuxx

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