segunda-feira, 28 de abril de 2014

A outra parte da tarde

Eu tive que ser forte. Tive que engolir o choro e conter aquela estranha vontade de gritar, de sair correndo e de me esconder debaixo das cobertas. Gostaria de ter feito tudo isso, mas aquele não era o melhor momento para demonstrações públicas de desespero. 

Estavámos todos reunidos em comemoração aos meus vinte e aos vinte e tantos do meu irmão quando a notícia de que minha tia seria internada nos puxou como um guindaste. Eu só precisei encarar o medo nos olhos castanhos, tão castanhos quanto os meus, para entender que a família precisava de apoio e não de mais lágrimas. Essa é a quarta vez em vinte anos que te vejo chorar, pai. 

Saí de casa e atravessei a rua. Deixei meus amigos no conforto das boas risadas - eles nem notariam a minha ausência. Do outro lado da calçada, estava a minha tia dentro do carro e o meu irmão ajoelhado de modo que seus olhos ficassem na mesma altura que os dela. Eu não pude deixar de sorrir quando a vi. Ela estava tão serena e tranquila, do mesmo jeitinho que sempre fora. Nunca levantara a voz para mim ou para meus primos, mesmo quando éramos crianças malcriadas. 

Enquanto nós três conversávamos, notei que o meu irmão começava a ficar com o rosto vermelho. Ele estava lutando para não chorar, mas eu já sabia que as lágrimas venceriam a barreira imposta por ele. Porque é tão difícil fingir, meu Deus? 

Foi se aproximando uma prima com os olhos inchados. Eu pedi a ela que ficasse com eles, enquanto eu ia ao banheiro. Atravessei depressa o salão, ciente de que todos já se perguntavam o que é que estava acontecendo lá fora, porque os meus parentes estavam chorando. 

Entrei no banheiro e fechei a porta. Apoiei as minhas mãos na pia, respirei fundo e lavei o rosto. Fui criando uma muralha, deixando que as minhas defesas tomassem conta da situação. Quando me encarei no espelho, já não tinha vestígios de tristeza, mas um olhar mais atento poderia encontrar um profundo vazio nos meus olhos castanhos. 

Não consegui mais voltar ao carro. A minha despedida foi a própria fuga. Ela foi para o hospital e dentro de casa a festa continuava. O bolo fora cortado e distribuído. A risada continuou. Parecia que ela nem mesmo passara ali, mas meu coração, no sentido mais literal possível, já não estava mais comigo - pegou carona com a minha tia e agora ele está lá, naquela sessão de hospital com três letrinhas horripilantes. 

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