quinta-feira, 10 de abril de 2014

O encontro (por Maria Paula)


Pra começar, eu não enxergo com os olhos. Enxergo com as mãos, com os ouvidos, com a boca e com o nariz. Meus quatro sentidos são tudo o que eu tenho. Faço uso deles todos os dias, mas por diversão do que por necessidade. 

É porque eu gosto de conversar com as pessoas. Gosto de ouvi-las e deixar que o som que sai de suas bocas criem formas, para que assim, eu possa traçar em meus pensamentos um possível rosto para cada uma delas. Depois, eu uso as minhas mãos (com a permissão do ouvinte, claro), e delineio todas as suas linhas faciais. Sei dizer quando uma pessoa está sorrindo ou não e as vezes, sei dizer se o sorriso é sincero. Posso chutar a idade através das linhas de expressão que preenchem os olhos e a testa. É um exercício diário, que eu pratico a todo instante. Chega a ser divertido.

Certa vez, encontrei uma voz diferente. Eu estava na escola, mas precisamente na biblioteca. A voz vinha como um sussurro, mas eu pude reconhecer algumas palavrinhas familiares. Capitu. Superlativos. Bentinho. Convento. Definitivamente, o assunto era Dom Casmurro, um clássico escrito pelo meu escritor favorito. Quando eu era mais nova, meu pai lia os contos do Machado de Assis e eu adorava. As crianças não entendiam como eu podia gostar tanto de um cara que escreve difícil, mas meu pai tinha um talento especial para contar as histórias e eu me deixava levar pelo som de sua voz... 

É claro que eu me aproximei. Fui atraída por aquele timbre e até mesmo pelas pausas que vinham marcadas de sua voz. Eu precisava ir até lá. 

E eu fui.

Fui tão na pressa que se quer pensei no que deveria falar. Meu nome? Minha deficiência? Não, não. Isso ele iria notar de qualquer jeito. Ah. Eu poderia dizer o óbvio, não é? Poderia dizer que o ouvi falando sobre meu Machado e que me interessava pelo assunto. 

E eu disse.

E ele foi tão gentil comigo. Me contou que para ele, a Capitu não traíra Bentinho. Então eu disse, que a história nada tem a ver com traição, mas se Bentinho conseguiu de fato unir as duas pontas de sua vida, como era seu desejo lá no início do livro. Ele gostou dessa minha perspectiva e eu fiquei feliz por alguém me ouvir e não perguntar porque eu era do jeitinho que era.

Depois de alguns minutos, eu pedi para que me deixasse tocar o seu rosto. O menino deixou. Eu me aproximei devargazinho, sendo levada pela sua respiração. Toquei a sua pele e contornei o seu rosto oval. O queixo era apenas um detalhe, que quase passou despercebido. Seus lábios eram finos, apenas um traço. O nariz era um pouco arrebitado. A cor dos olhos, eu jamais saberei - a não ser que eu pergunte, mas ele jamais conseguiria me dar os detalhes que tanto procuro. Disse que eram castanhos. Mas como era o castanho? 

A sua voz combinava com os seus traços. Eu poderia até dizer que ele era bonito. Agradeci e depois fui embora. 

Dias depois, voltei a biblioteca. Não encontrei sua voz aos sussurros em canto nenhum. Nos corredores da escola, tive a mesma decepção. Era estranho. Eu queria tanto falar sobre Machado com aquele menino, perguntar se ele gostava do Brás Cubas. Mas... mas nada. Era como se ele tivesse sumido. E eu nem sabia o seu nome. Queria tanto saber agora...

[continua]

Maria Paula

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