terça-feira, 22 de julho de 2014

Domingo

Falei que não precisava se preocupar, que eu poderia muito bem buscar a escada e enconstá-la no pé de jabuticaba - mas você é teimoso e foi na minha frente, pegou a escada muito antes de eu chegar no quintal e começou a comer as frutinhas engraçadas que grudam nos troncos. 

Logo eu já estava ao seu lado, encarando a escada e pensando se teria coragem de subi-la. Eis um fato sobre mim: não gosto de altura, porque tenho medo de cair. Já é complicado pensar no décimo sexto andar em que o Lucas mora, mas uma escada velha de madeira consegue ser mais assustadora do que um elevador.

Mas é claro que eu subiria, a ideia de ver você nessa tarefa é totalmente descartável. Vamos lá, um passo de cada vez. A escada está firme na árvore, não vou cair. Começo pelas jabuticabas mais próximas e logo que a minha mão se enche, entrego-as a você. Subo mais um degrau para alcançar as frutinhas mais bonitas e redondas. Minha mão está cheia de novo. Eu te chamo uma vez e você não responde, olho para trás e me deparo com a seguinte cena: você comendo todas as jabuticabas que eu pedi para segurar.

- Ô vô!!!!

Você me chama de boba, mas de um jeito carinhoso. Chega a ser engraçado: eu me equilibrando na escadinha de madeira, com as pernas bambas, caçando as jabuticabas mais bonitas enquanto você come todas as que eu já tinha pego para o pessoal. 

Meu irmão chega com a noiva e me entrega um balde, que mais parece um pinico. Penso em comentar algo sobre isso, mas é melhor ter um pinico do que entregar mais uma jabuticaba pra você. Hunf. Coloco todas no balde, enquanto o Pedro sobe as escadas para pegar as que estão no alto. O pinico já está cheio e nós quatro decidimos voltar. 

A mãe gosta de olhar fotografias antigas. Ela tinha comentado comigo, não faz muito tempo, que você tinha jogado como lateral esquerda num time intitulado "Onze Garotos". Achei o nome engraçado. Entreguei os álbuns amarelados nas suas mãos e pedi para você me dizer quem era cada um dos jogadores. Também vimos fotos do Pedro pequenininho e até algumas do meu aniversário de sete anos.

Você estava no braço do sofá e eu do seu lado, ouvindo tudo atentamente, torcendo para que a minha péssima memória fizesse ao menos um bom trabalho hoje - queria guardar os nomes dos seus colegas de time. 


Eu não teria percebido sua voz mais fraca se não fossem os chutes que a mãe deu na minha canela. O sinal era óbvio: mude de assunto, pare de perguntar sobre as fotografias, porque ele fica emocionado. Respeitei e guardei os álbuns.

Eu queria ter dito que também ficara emocionada, que gostaria de ouvir mais das suas histórias, pegar todas as jabuticabas pra você antes de anoitecer. Mas nós fomos embora e o domingo acabou. Fiquei pensando sobre o dia e antes de dormir, decidi escrever - não poderia confiar apenas na minha memória, não me perdoaria se esquecesse qualquer momento bom que passo ao seu lado. 

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