sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Ladeira

Uma ladeira de barro, que sobe e desce para todos os lados, o coração da cidade. Na minha subida eu já vi de tudo, se é que um dia a gente pode afirmar isso com total segurança e lucidez. O sol tá acabando comigo e eu deveria ter colocado tênis, ao invés desses chinelos que já foram brancos. É que eu não sabia que essa ladeira seria tão estreitinha e longa. Foram quantos meses de caminhada? Nem lembro mais, parei de consultar o calendário depois do primeiro mês. O tempo passa rápido de manhã, mas leva uma eternidade depois do almoço. E eu continuo caminhando, subindo com esse gerúndio que eu não aguento mais carregar nas costas. Dói tudo, mas prefiro assim, já que me serve de distração. Alguns passos além, e eu já consigo ver a pracinha e as pessoas e as lojas que a cercam, o barulho das sacolas batendo umas nas outras, seguradas nas mãos das crianças, posso distinguir com clareza um ponto mais distante e bem alto, deve ser a igrejinha da cidade. Essa subida exigiu tanto de mim, como se fosse uma escalada. Estou cansada, no sentindo mais hipérbolo que você possa imaginar, e por favor, peço que imagine, pois não tenho tempo para escrever figuradamente. Espere um instante. Sinto um formigamento nos pés, quase perco o equilíbrio na tentativa de tirá-los do chão. É como se eles estivessem presos por uma cola ou magnetismo. Sei lá, não me importam as causas. Eu estava tão perto, até consegui distinguir o marrom que encobre a cruz da igrejinha, no ponto mais alto da cidade. E agora, aqui estou, sem poder descer nem subir, nessa estabilidade ridícula. Podem rir, que o choro é por minha conta. Se meus pais estivessem aqui, eles certamente diriam que era melhor ter esperado, pego uma carona, qualquer outra coisa. Mas quem foi que disse que nós conseguimos ouvi-los, chega a ser desesperador, essa vontade de ensinar e o desinteresse em ouvir. O sol já não incomoda, mas o corpo ainda dói. Resolvi tirar o gerúndio das costas, pra quê carregar peso, se já não vou a lugar nenhum? Repenso toda a subida, questiono minhas escolhas e a pressa em querer chegar logo lá em cima. Se valeu a pena? Bem, eu deveria ter esperado. Tá aí. Dá próxima vez, levo o particípio pra camihada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por visitar O Laço Cor de Rosa. O seu comentário é muito importante para mim!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...