domingo, 9 de novembro de 2014

Teatro


Se a vida fosse um espetáculo, se a vida realmente fosse um espetáculo, eu teria o roteiro em mãos muito antes de falar qualquer bobagem. Eu teria direito a alguns ensaios, minha voz, minhas mãos e meus olhos seriam todos direcionados, milimetricamente direcionados e ajustados, até alcançar a perfeição singela, dessas que a gente enxerga com tanta naturalidade nos artistas. Mas não sou artista e nem arteira, nem mesmo fiquei sabendo dos ingressos que estavam à venda. Foi tudo no improviso, malfeito e indiscreto, com lágrimas verdadeiras e salgadas, dessas que brotam em quantidade infinita quando diante de uma plateia. E que plateia mais barulhenta. Mas fazer o quê, se a arte é para todos. Então, aqui estou, pisando com minhas sapatilhas velhas esse piso de madeira, fazendo barulho como a plateia, fixando os olhos no fundo do palco, naquele pontinho de luz que encoraja e assombra. Eu deveria ter ensaiado. E pensar que eu mesma poderia ter criado um roteiro impecável, moldando as minhas falas como uma boa parnasiana faria, se é que houveram escritoras parnasianas. Se é que assim mesmo que se conjunga o verbo haver. Não me venha com essas sobrancelhas arqueadas, não é porque sou estudante de Letras que conheço todas as conjugações dessa língua tão rica e impressionante que vivo todos os dias, desde que me levanto até quando os sonhos me buscam e durante os sonhos também, porque sonho em português. Se eu tivesse um roteiro, eu saberia o fim desse texto e então, saberia se valeu a pena esses quinze minutos antes das dez que passei aqui, digitando sem os óculos, forçando a minha visão. Um roteiro resolveria uma boa parte dos meus problemas - eu saberia tanta coisa. Eu seria merecedora desses aplausos uníssonos e vibrantes. Eu comtemplaria a movimentação das cortinas vermelhas sem as malditas borboletas no estômago. Eu escreveria menos períodos com esse pronomezinho do caso reto, primeira pessoa do singular. A mudança seria pra valer, autorizada por mim, dona desse palco, desse piso de madeira, dessas sapatilhas, dona de tudo, menos do roteiro. 

2 comentários:

  1. Foi você que fez?!
    Muiitoo lindo o texto adoreii!
    Bjjs
    http://meninadivadamodaoficial.blogspot.com.br/

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