quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ma

Os gemidos na sala eram inconstantes, mas orientavam o diálogo na cozinha. Eu nunca tinha visto tamanha tristeza em seus olhos e esse é um ponto de se admirar, pois dos quinze anos que passamos juntas, inúmeros foram os motivos que a levariam às lágrimas. Você é forte por definição e experiência, no seu lugar, eu já estaria perdida. Uma mãe enferma, carente de seus cuidados; um filho que andou com más companhias e acabou pagando um preço bem alto por isso; uma neta que sofre constantemente os maus tratos da mãe; e o que seriam das listas se não gostássemos tanto de enumerar os agravantes da vida. Seria pedir demais que um abraço fosse o suficiente para amparar a sua dor ou que a proximidade se encarregasse de transferir uma parte do peso para as minhas costas? Eu não me importaria, você já fez tanto por mim, cuidou do meu sono, preparou minha comida, corrigiu as malcriações, sarou as raladas nos meus joelhos de tanto pedalar rápido e cair, porque eu nunca soube parar. Até hoje eu não sei, Ma, preciso estar sempre ciente que a qualquer momento os freios podem não funcionar e o meu queixo dar de cara no chão. Você só não penteava o meu cabelo, com medo de embaraçar ainda mais, dizia que não sabia fazer essas coisas porque só teve meninos. Eu era sua filha postiça e para mim, você era a vovó dos livros. Seus olhos estão vermelhos e os gemidos continuam, mas agora estão quase inaudíveis, ela deve ter pegado no sono, Ma. Calculo duas horas de sossego. Se não fosse a voz do meu pai, enérgica e grave, eu poderia me perder nessas lembranças. Mas é a voz dele que me traz de volta para cozinha, para mão que segura a minha, para a triste realidade que nos encontramos. Eu gostaria de dizer que tudo ficará bem, mas assim que eu sair por aquele portão, nossa visita será apenas uma pequena parcela da manhã, dessas que não desfaz o acinzentado do dia inteiro. 

6 comentários:

  1. Vc escreve muito bem, Ana <3 Continue assim. Obrigada por, graças aos seus vídeos, ter me mostrado que o curso de Letras era o meu caminho.

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  2. Gosto do jeito que escreve, nao delimita tempo ne espaço mais tudo é entendido aobdecorrer do texto, que por sinal nos leva direitinho onde devemos chegar... Parabens

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    1. Nossa Cristiane, fiquei muito feliz com o seu comentário, obrigada.

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