segunda-feira, 9 de março de 2015

A chave, os alunos e a realidade

Todas as minhas amigas tinham a chave de casa. Eu era a única que não, e quando a perua me deixava em casa, tinha vergonha de tocar o sininho e esperar que alguém abrisse pra mim. Nesse pequeno instante, a Pandora me distraía com suas lambidas, sua festa de todos os dias. Eu questionava o meu pai:

- Porque não posso ter a chave de casa? Você não confia em mim? 

- Em você eu confio, filha. Eu não confio é nos outros.

Eu tinha uns 12 anos na época. Lembro que toda vez que eu ficava emburrada com alguma coisa, fazia um bico enorme e meu irmão quando notava, perguntava o que tinha acontecido.

- Eles não confiam em mim, Pedro. Você não entende. Eu já sou grande e posso ter a chave. Todas as minhas amigas têm, a Ana, a Bia. Só eu que não.

- Você que não entende, magrela. Quantas vezes eu te vi atravessar essa rua sem olhar para os dois lados... você vive no mundo da Lua. E pior: acha que todo mundo é bonzinho. 

Eu não entendia. A parte do "mundo da Lua", quero dizer. As pessoas não são boas, mesmo? Porque alguém me faria mal, se eu não fiz nada? Meu irmão dizia que eu era ingênua, que essa história de ser otimista - dessas que veem o copo transbordando, um dia me traria uma decepção enorme. Bem, ele estava certo, com apenas um singelo erro: ao invés de uma, houve muitas. 

Uma delas foi hoje. Estava indo para a academia, quando percebo uma estranha movimentação a uma pequena distância de mim. Muitos adolescentes juntos, todos vestindo o uniforme da escola do bairro. Eles estão aos montes, conversando alto, mexendo com os motoristas, causando mesmo. Tem um grupo se formando um pouco mais a frente e logo eles fecham uma roda no meio da praça.

Risadas extremamente forçadas.

Celulares ligados, focados no centro do círculo.

Dois garotos. 

Os outros que os cercam, estão repetindo "briga", "briga". 

Eu devo ser apenas 4 anos mais velha que eles. 

E então, o primeiro soco.

Depois, um tapa. 

Eu já estava no outro lado da rua quando ouvi mais um e mais um. 

Eles estavam uniformizados. Eles tinham acabado de sair da escola. Meu pensamento já estava longe: eu pensei nos professores desses alunos, na luta diária, na ânsia de ouvir o último sinal indicando a saída de seus nem tão queridos estudantes. E também pensei nos meninos: nos seus medos, nas suas ambições, nos seus sonhos e em que momento a vida fez essa curva que os levou para o outro lado da estrada. 

Então, eu chorei. Sim, pai, eu chorei. Sou feita de emoções da cabeça aos pés, pensei no que poderia fazer por eles, pensei que se eu fosse a professora deles, talvez eu fizesse alguma diferença e aí... aí eu lembrei da história da chave. Lembrei da inocência que o meu irmão via em meus olhos e que talvez hoje, se ele estivesse por perto, ele a reconheceria de novo. E me dei conta, chegando na academia, já sem nehum ânimo de treinar, que se eu realmente fosse a professora deles, eu não poderia fazer nada. Nada.

Coloquei a mão no bolso da calça e senti as chaves. Apertei com força. Desde os 14 me consideram responsável (ou insistente demais) para possui-las, mas até hoje, aos 20, a realidade ainda me entristece. Seja lá o que tenha sido modificado durante esse curto período de tempo, os meus olhos ainda guardam um pouquinho dessa pequena - e tão infantil decepção. 

4 comentários:

  1. Muito bom texto!

    http://derepentedezessete.blogspot.com.br/

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  2. Lindo texto Ana, você escreve muito bem.
    Eu gostaria de tirar uma dúvida Ana, como você consegue separar as tarefas da faculdade, as leituras de lá, e as leituras de outros livros. Ultimamente eu não tenho conseguido tempo para ler outros livros, gostaria de umas dicas para dividir melhor meu tempo.

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    Respostas
    1. Flávia, ultimamente eu só estou lendo os livros da faculdade! Deixo os outros livros para ler nas férias! Não tem jeito, hahaha bjs

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