domingo, 14 de junho de 2015

A vó e o tempo

As mãos dela tremiam - um atributo que surgiu com o passar do tempo, mas que se acentua quando ela fica nervosa. Tenho vinte e um anos e minhas lembranças mais remotas e nítidas são a partir dos seis (não sei dizer se as mais antigas são apenas criações minhas com o auxílio de fotografias). Lembro dos domingos na casa da vó; pelo menos uma vez por mês nós íamos lá, eu, meus pais e meu irmão. Meus primos sempre chegavam primeiro e devoravam todo o cuscuz, seguido pelo bolo de fubá. Quando chegávamos, restavam poucos pedaços, mas isso era o de menos. Lembro das conversas de adulto que os mais velhos tinham, das vozes que se misturavam, se cortavam, pois todos queriam falar ao mesmo tempo. Nessas horas, eu costumava ficar com o meu tio na sala, assistindo desenho animado, porque assim como eu, ele também era criança - a única diferença era que ele já estava na casa dos quarenta. Apesar dos cabelos acinzentados e dos remédios, a vó sempre foi muito ativa. Cuidava da casa, dos filhos, fazia compras, pegava ônibus... até os meus doze anos, ela era mais alta do que eu. De uns tempos pra cá, após um longo período de desequilíbrio emocional vivenciado por um parente meu, a aparência dela mudou. Começou a encolher. Sua coluna está mais curvada, seus movimentos estão cada vez mais lentos, a dor faz companhia dia e noite, bem como a falta de ânimo, de fome, de sono. Hoje, pela primeira vez, eu a vi chorando. A sua voz ficou trêmula e de seus olhos, as lágrimas escorriam suavemente. Eu estava ao lado dela, na cozinha, ouvindo a conversa de adulto que tempos atrás não podia. Puxei o banquinho para mais perto, acariciei seus cabelos finos, direcionei minha bochecha diante de seu rosto. Então, ela fechou os olhos, se aproximou e me deu um beijinho. Não durou mais do que três segundos, mas poderia jurar que o ponteiro do relógio parou, enquanto esse pequeno gesto se fazia e se desfazia em mim. Ninguém notou. Os adultos (e eu me incluo nessa observação), têm o costume, o infeliz costume de não se ater aos detalhes. O que importa é o todo; ainda que essa generalidade não possa medir os pequenos prazeres da vida. 

4 comentários:

  1. Que texto mais meigo! É por isso que eu acho que o tempo é tão relativo e que, de certa forma, é um erro cronometrá-lo em relógio ou medi-lo de qualquer outra forma... Há momentos que passam despercebidos por nós e outros que duram uma eternidade. Além do mais, os conceitos de "efêmero" e "eterno" são pessoais, o que torna tudo ainda mais especial (e complicado).

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  2. Seu texto é muto bonito e emocionante. Ah, se achássemos poesia em todos os dias... Parabéns! :)

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