terça-feira, 4 de agosto de 2015

Bem-te-vi


Certamente, um dos momentos que mais aprecio no meu dia é a hora do almoço. Aqueles trinta minutos antes do início do estágio são especiais pra mim. Isso porque além de me alimentar, uso esse tempo para conversar com Deus. O murmurinho dos outros funcionários parece estar tão distante de mim, que não percebo as risadas na mesa da frente ou os diálogos na mesa de trás. É como se o silêncio que existe dentro da minha cabeça se expandisse ao meu redor e dificilmente algo ou alguém conseguiria me tirar desse estado. 

Contudo, por mais que os meus ouvidos estejam momentaneamente "desligados", os meus olhos estão trabalhando, observo as pessoas que passam pela minha mesa em direção ao restaurante, as lanchonetes fechadas, a minha refeição colorida, numa tentativa de ser mais saudável e um bem-te-vi.

A espécie de pássaro mais conhecida da América Latina está no refeitório da minha escola. A presença dele é percebida pelo contraste entre o cinza dos pilares, das mesas e do chão com a sua barriguinha amarela, sua listra branca no topo da cabeça. Ele pousou numa das cadeiras e movimentava a cabeça de um lado para o outro, observando tudo. 

Quando terminei o meu almoço afastei a bandeja, colocando-a no lugar onde estaria a refeição de alguém que estivesse comendo na minha frente. Numa questão de segundos, o bem-te-vi se aproximou da minha mesa e rapidamente pegou a tirinha de frango que eu havia deixado no prato. Então, ele se afastou da minha mesa subindo para uma das vigas do refeitório, quando a tirinha de frango escapou de seu bico e caiu no chão.

Mesmo assim, ele continuou voando até alcançar a viga e estando lá em cima, observava o refeitório de novo. A tirinha de frango estava embaixo de uma mesa e dificilmente o passarinho a enxergaria do ângulo em que ele estava. Aquela cena, que durou pouco mais de 15 segundos, me deixou triste. A empatia é um negócio meio louco, que nos faz pensar como o outro, mesmo quando esse outro é um bem-te-vi.

Ele devia estar morrendo de fome e seu instinto de sobrevivência o fez avançar no meu prato para buscar o alimento que eu havia descartado. O passarinho estava perdido e por mais que a escola seja ampla, ele não conseguiu encontrar o caminho de volta para as ruas, para as árvores, ou melhor: para as poucas árvores que ainda existem por aqui. 

Conversei sobre o que aconteceu com uma amiga e ela me orientou a conversar com outros funcionários, procurar alguém que pudesse atraí-lo para fora. Farei isso amanhã. Por hora, ficarei aqui pensando no bem-te-vi e nas minhas conversas com Deus, o passarinho estará presente. 

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