segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Hábitos


Pelos 21 anos que me conheço, posso afirmar categoricamente que sou uma pessoa cheia de manias. Tenho a minha rotina, os meus hábitos e sei que quando o plano toma outro rumo, isso me incomoda, ainda que ligeiramente e por alguns minutos. Ir à igreja, contudo, tornou-se muito mais do que um costume - não se trata apenas de uma repetição, mas sim de um ato inerente e indispensável a minha vida. 

Eu e a minha cunhada temos o hábito de nos sentarmos no fundo do salão, quase sempre no mesmo lugar - eu preenchendo a ponta esquerda e ela à minha direita. Foram muitos domingos até eu perceber a presença de uma senhora sentada atrás de nós que tem o costume de comentar durante a pregação do pastor, geralmente algo que nos dá vontade de rir, ainda que seja bem baixinho. Por mais de duas vezes eu a vi com a mesma blusa de gola alta roxa. Foram essas repetições que me fizeram guardar um pouco de sua fisionomia.

Os cabelos grisalhos são encaracolados, seus olhos são castanhos escuros e ao redor deles, algumas linhas se formam com sutilidade. Ela tem essas mesmas linhas nos cantos da boca; e isso me faz lembrar que durante o culto, ela quase não sorri. Para mim, não se trata de seriedade, mas de solidão. Seus braços ficam esticados até a altura dos joelhos, onde as mãos se entrelaçam. Seu corpo todo é franzino, pequeno. As vezes, tenho vontade de sentar ao lado dela, orar junto com ela, saber o seu nome e porque que ninguém vem buscá-la. 

Foram esses hábitos que me chamaram a atenção. Enquanto escrevia, fiquei me perguntando se alguém mais notou aquela senhora com a blusa de gola alta roxa, sentada no fundo da igreja, atrás de duas meninas; se sabem o nome dela ou porque está tão sozinha. 

O pastor pediu para nos levantarmos e cumprimentarmos os irmãos que sentaram próximos a nós. Eu abracei minha cunhada e mais duas ou três pessoas que nem a cor dos cabelos eu me lembro mais. Antes de sentar novamente, disse a minha cunhada que gostaria de cumprimentar aquela senhora. Ela disse que iria comigo e nós a abraçamos, dissemos "que Deus te abençoe" e voltamos aos nossos lugares. 

Antes de voltar a minha atenção novamente ao pastor, fiquei pensando que pela primeira vez em todos esses domingos, eu a vi sorrir. Espero profundamente que este seja o seu mais novo hábito.

4 comentários:

  1. Como assim esse seu texto está sem nenhum comentário? Não pude deixar esse espaço vazio e solitário, tinha que acolhe-lo e é o que estou fazendo agora. Meu, amei esse texto! Adorei esse seu gesto e essa sua percepção aos detalhes dos momentos que você vive. Eu também já tive momentos assim em que fui conversar ou pelo menos abraçar alguém que estava solitário. Isso nos revitaliza e transforma a gente em pessoas mais humildes, caridosas, agradáveis e solidarias. Essa atitude que você teve, pode não ter mudado a vida da senhora, mas, com certeza mudou e melhorou o dia dela. E o seu dia também. Amei o texto, de verdade.

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    1. Obrigada pelas suas lindas palavras, Grazi! Deixaram o meu dia mais feliz <3

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  2. Que crônica maravilhosa! Estava passeando pelo seu blog e esse texto me trouxe emoções. Sua observação é muito aguçada, minuciosa, inteligente e poética. Deveria escrever um romance. Meus parabéns!

    Beijos,
    Rafaella.

    http://imperioretro.blogspot.com.br/

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    1. Uau, obrigada, Rafaella!! Obrigada, de coração!

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