quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Seu Antônio

Toda manhã, desde o início de Julho, eu pego o ônibus no ponto do seu Antônio, um senhor com os seus 65 anos que cuida da rua. Todos os dias ele estava lá com a sua cadeirinha almofadada encostada na guarita. Seu Antônio tem um bigode branco, levantado constantemente devido à curva que sua boca faz quando quer sorrir, mas sem mostrar os dentes. Acredito que tenha o cabelo ralo, escondido sob o boné verde-musgo. Costuma levantar-se constantemente, dá uma volta ali, outra aqui, sempre com as mãos entrelaçadas por trás, na altura dos quadris. Este senhor foi a minha companhia no decorrer desses 30 dias de férias; e eu fui a companhia dele também, durante esses 30 dias em que ele cobriu um outro vigia, que assim como eu, também estava de férias, mas diferente de mim, estava viajando. 

Quando eu não tinha que correr para pegar o ônibus porque tinha perdido a hora, eu e o seu Antônio conversávamos sobre o tempo.

"Você viu, seu Antônio? Agora fez sol, ainda bem, né?"
"Verdade, fia. Tempo ruim dá uma tristeza, né? Se bem que uma garoinha seria boa, pra refrescar!"
"Bem pensado! Quem sabe no final de semana, né?"

Outras vezes, conversávamos sobre o trabalho. Eram conversas curtas, porque o ônibus não demorava a chegar. 

Hoje, o seu Antônio se despediu de mim.

"Agora não vou lhe ver mais, fia. O vigia voltou e acho que segunda-feira ele tá aqui já."
"Que pena, seu Antônio! Vou sentir falta do senhor."

E lá estava aquele sorriso, sem mostrar os dentes. Seu Antônio sorri com os olhos. 

Logo o ônibus chegou. Antes de subir os degraus, dei tchau para ele. 

"Vai com Deus, minha fia."

Já dentro do ônibus, paguei a passagem e sentei sozinha, na janela do último banco. Quando avançamos um pouco, olhei para trás - pensei em acenar, mas o seu Antônio já estava tão pequeno e distante, que eu só consegui enxergar seu corpo encostado na cadeira e por alguns instantes, tive a impressão de que ele estava olhando na mesma direção que eu. 

Voltei a me sentar e no reflexo do vidro fiquei surpresa ao perceber que eu estava sorrindo com os olhos.

4 comentários:

  1. Continue postando essas crônicas Ana, sua prosa é tão leve quanto os pequenos detalhes da vida.

    www.manteigademinduim.blogspot.com

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