segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Relógio

Do alto de seus ponteiros, o Relógio foi testemunha do incêndio. Sabe com pontualidade a hora em que o fogo dizimou o acervo do museu - foi ele quem marcou, ainda que sua vontade fosse parar seus ponteiros ou retrocedê-los. É ele que lá de cima costumava ver os funcionários abrindo e fechando o museu, curadores criando novas exposições, visitantes entrando e saindo nas tardes quentes e abafadas de São Paulo. Todas as peças se foram. O Relógio não consegue entender. Próximo a ele, estava um homem uniformizado, um dos primeiros a chegar no incêndio - sua vida foi levada e não era cópia, como grande parte do acervo. O Relógio quer parar, interromper sua contagem ininterrupta e chorar. Quer chorar como um menino, mas não pode. Precisa marcar o tempo, ainda que ninguém o consulte. Ainda nesta manhã, olharam para ele e só queriam saber de tirar foto. Quando fecha os olhos, só sabe lembrar do fogo, da perda, da dor. Agora ninguém quer olhar para ele - ainda bem, porque viriam o extraordinário: um relógio entristecido, tentando parar os segundos.


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