quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Farol

Há pessoas que odeiam o mar... sentem-se enjoadas, intimidadas com a imensidão azul. Para mim, o mar sempre foi um companheiro... quando as coisas estavam difíceis, era do mar que eu tirava o meu sustento, resgatava a paz em meu coração e me sentia vivo de novo. Eu e o meu barquinho conhecemos bem essas águas. Foram noites e noites embalados pelo balançar das ondas, sentindo a brisa fria no rosto, tentando aquecer as mãos com as luvas, assoprando e depois esfregando uma sobre a outra. De todos os encantos do mar, o farol era o que mais me emocionava. Dava gosto de ver aquela luz forte, direção para os perdidos, luz para os velhos conhecidos. Eu voltava no tempo quando olhava aquele farol. Lembrava de quando meu pai me levava para pescar a noite, eu morria de medo do escuro. Até avistar o farol, era uma agonia. Ficava ansioso, procurava alguma distração, mas nada tirava de mim aquela angústia. Muitas vezes pegava no sono e era meu pai quem me acordava, todo feliz e agitado, apontando o dedo em direção ao farol. Agora eu podia ver o seu sorriso. Certa noite, o farol não acendeu. Eu já era adulto, era casado e tinha dois filhos. Percebi o incidente da janela do meu quarto e confesso que não acreditei. Como podem desligar o farol? Era a coisa mais linda do mundo, até mais do que a Lua. Muitas vezes, deitado na rede do quintal, eu admirava o farol e lembrava da minha infância, do meu pai. Prometi que assim que o dia amanhecesse, eu iria me informar a respeito do apagão. Acordei cedo naquela manhã e perguntei para os vizinhos, para os colegas de trabalho, para todos que assim como eu, conheciam a tradição. Ninguém soube explicar, mas a resposta de uma senhora me intrigou. Ela perguntou o porquê de eu me importar tanto com isso, uma vez que tinha energia elétrica no meu barco e na minha casa. Já não vivia mais na escuridão, então qual era a importância de um farol em minha vida? Achei que a resposta estaria na ponta da língua, mas não estava. Fiquei pensando... até que eu finalmente entedi o que a senhora quis dizer. Se eu já não sentia mais medo do escuro, por que deixar a luz acesa? Eu queria o farol, porque ele era parte da minha infância. Tudo envelhecera: eu, meu pai e até o seu barco. O único que mantivera-se indiferente ao tempo foi o farol. Agora, nem isso. E eu não queria aceitar que o tempo passara e que tudo mudara. Eu já não estava mais no escuro, mas por um momento, quis ficar, para que assim, o farol tivesse alguma utilidade - ou, sob um outro ponto de vista, para que eu tivesse alguma direção aonde ir quando sentisse medo. Tudo isso e nada. E nos meus 40 anos de vida, me vi reaprendendo a viver sem a luz do farol. De início, achei que não conseguiria, e realmente, não consegui por muito tempo. Até uma noite em que não me deitei na rede e nem abri as janelas: esqueci-me completamente de que em algum ponto do mar, existia o meu farol, o meu querido farol...

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