terça-feira, 19 de abril de 2016

12 - 22

Já era quase hora dela ir dormir. Todos os bichinhos estavam na cama, organizados em fileiras, dos mais velhos para os mais novos. Na televisão, passava estreia: A Era do Gelo 1, que atualmente já deve estar no quarto ou quinto filme. Não lembrava de ser tão paciente assim. Ela beijou cada um dos bichinhos e desejou boa noite. Depois, guardou-os no baú. Era o momento de aparecer. Ela se virou e pude perceber que estava assustada. Começou a mirar os pés e a apertar as mãos, tentando afastar a sensação de perigo. Ninguém a conhece tão bem quanto eu. De assustada, para confusa, desconfiada e agora, curiosa. Apesar de todas as expressões faciais que adquiri com o tempo, a de curiosidade é a que mais me dá vontade de rir. Eu tenho o costume de arrumar a minha postura, colocar o pescoço mais para frente, arregalar os olhos e entrelaçar as mãos. Se pudesse dar um nome a essa cara, seria "conte-me tudo, vai". Então, nós nos sentamos na cama e diferente do que eu esperava sobre mim aos 12 anos, ela não me fez nenhuma pergunta. Não perguntou sobre o seu tão aguardado príncipe encantado, com quantos anos deixou de ter espinhas ou como foi o seu primeiro beijo. Ela me observava e eu não pude evitar de pensar que talvez, ela estivesse orgulhosa de si mesma no futuro. Mas o tempo era curto e eu precisava dizer algumas coisas. Precisava falar sobre o que estava por vir, precisava alertá-la, dizer para que guardasse o seu amor, para que não sofresse por antecipação ou porque alguns meninos faziam piadas sobre ela. Precisava dizer que ela era linda, que não havia nada que não se encaixasse, porque era perfeita. Precisava dizer que a auto-estima era tão essencial quanto se alimentar bem todos os dias. Sobretudo, precisava dizer que quando tivesse a idadade que tive até ontem, partiriam o seu coração, da forma mais fria e impiedosa possível. Precisava dizer a ela para que não confiasse, não se entregasse, porque a gente se engana com as pessoas. Precisava protegê-la, construir um muro que afastasse os seus sentimentos bons dos sentimentos negativos dos outros. E tudo isso passou pela minha cabeça tão rápido, que não tive tempo para organizar as ideias. Ela continuava me observando com o seu olhar firme, até que criou coragem e me abraçou. Só eu sei o quão difícil foi para ela tomar essa iniciativa, mas agora ela estava feliz, se sentindo segura. E eu abracei aquela menina que um dia fora eu e entendi que eu não precisava dizer nada. Tudo o que eu queria era me proteger das dores do mundo, mas como eu faria isso comigo mesma? Como deixaria passar todos os aprendizados? Sou feita das alegrias e das dores que vivi e não posso fugir disso. Então, me desfiz do abraço e olhei bem fundo em seus olhos, tentando controlar as lágrimas que surgiram somente agora, enquanto escrevo. Não disse nenhumas das coisas que planejara, apenas disse que a amava muito. Agora, Precisava deixá-la. Antes, arrumei os seus dois travesseiros e a cobri com o lençol. Dei um beijo de boa noite em sua testa e me despedi com um aceno. No final das contas, acho que fiz bem a ela. Apesar de todas as adversidades da vida, ela nunca deixou de lado seus valores e a cada dia que passa, sinto mais orgulho da menina que fui, assim como ela sentiu orgulho da mulher que estava se tornando. Então, entendi que não importava o que acontecesse, nós duas ficaríamos bem.

Feliz aniversário, eu.

Esse texto não foi revisado.

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