domingo, 8 de maio de 2016

A batalha, o egoísmo e a dor que merece ser sentida

Talvez eu me arrependa de gastar essas linhas, enquanto há um trabalho a ser feito. Mas como não aproveitar o silêncio? Preciso escrever, por muito tempo quis deixar para lá, mas eu não consigo. Escrever faz parte de mim e quando não coloco no papel algumas palavras, sinto que meus ombros ficam mais pesados, como se cada sentença não escrita pesasse. 

A primeira coisa que vi quando cheguei foi o tapete. Tenho o costume de andar olhando para baixo, o que é algo que eu realmente preciso mudar. Então, enquanto limpava os pés, a voz da minha avó me chamou a atenção. Olhei em sua direção e lá estava ela, toda pequena sentada, as bochechas vermelhas e as lágrimas finas rolando delicadamente pelo seu rosto. Minha mãe estava ao seu lado, também com os olhos vermelhos, mas sem nenhuma lágrima aparente. Apenas a voz embargada que denunciava seu choro reprimido. 

E lá estavam as duas, chorando mais uma vez, discutindo, refazendo todos os acontecimentos meses, semanas, dias antes da morte do meu tio para encontrar a falha, o momento exato em que tudo começou a desmorar. Essa é uma história que conheço melhor do que eu gostaria e cujo final eu jamais poderei alterar. 

Então, comecei a repensar nos últimos dois meses. Fevreiro e Março. Durante esses dois meses, guardei a dor de perder o meu tio numa gaveta para viver outra e é difícil admitir que fiz isso. Por todo esse tempo, os papéis foram invertidos - era a minha mãe que me consolava, quando a verdade era que ela que precisava de mim. Destitui-me de qualquer força, qualquer vontade de viver por alguém que já não dava a mínima para  mim, enquanto a minha mãe, no cantinho do sofá, chorava baixinho, até que resolvia levantar-se, ir ao banheiro e só sair de lá quando seu bom humor fosse restabelecido. Eu sempre me perguntei como é que ela consegue. Como ela conseguiu cuidar de mim, aguentar meu "chororô", meu drama, minha fossa, enquanto lá no fundo do seu peito a dor de perder o irmão ainda era constante. Como ela conseguiu secar minhas lágrimas, quando as delas ainda estavam úmidas. Como ela manteve a paciência comigo, nos dois meses mais egoístas de toda a minha vida.

Eu não pensei nela. Eu só pensava em mim, na minha indignação por ter feito tudo por alguém que me deixou sem pensar duas vezes. Eu só conseguia enxergar a humilhação que eu sentira por ter sido "abandonada", "largada" e tantas outras coisas que pensei quando a razão já tinha me deixado por completo. Eu não enxergava que tudo aquilo era a resposta de Deus para as minhas orações. Mas ela estava lá. O tempo todo. Ela não me deixou pegar o trem sozinha durante semanas, ela me lembrava de comer, me acompanhou na igreja quando eu decidi pedir ajuda e até consentiu com coisas que ela jamais consentiria. Ela guardou a sua dor para cuidar da minha nesses últimos dois meses. Ela guadou a sua dor para cuidar da minha. Ela guardou a sua dor para cuidar da minha.

O que posso dizer, além de estar tão envergonhada que sinto vontade de me encolher até caber no cantinho do armário? Fui o que achei que jamais seria, fui egoísta no momento em que ela mais precisava de uma amiga. Ao invés de simplesmente mandar quem já não dava a mínima para mim ir à merda, eu me apeguei àquilo como um jardineiro se apega a uma flor sem caule, e tenta de todas as formas plantá-la de novo na terra, dar-lhe vida, fazê-la criar raízes novamente. O que ele não sabe, é que não faz tudo isso pela rosa, mas por si próprio. E ao invés de olhar para o jardim, concentrar-se nas outras árvores que precisavam ser podadas, nas rosas que precisam ser regadas, seus olhos só conseguem enxergar aquela florzinha murcha, desbotada. Ele não vê o que está perdendo, porque o medo de soltar a florzinha é maior e apaga todo o resto.

Mas há tipos diferentes de cegueira e essa não costuma durar muito. Hoje, eu consigo perceber como agi errado. Era eu quem devia ter guardado a minha dor para cuidar da dela. Meu tio não escolheu ir embora, aconteceu porque tinha que acontecer. Enquanto a minha dor fora movida por uma escolha, para a minha mãe jamais fora dada a opção. E meu coração está pesado, porque fiz pouco por ela e muito por quem não me amou nem mesmo um décimo do que ela me ama. Mas estou tentando compensar e admitir meu erro é, de certa forma, um primeiro passo.

Sabe, não temos controle sobre as outras pessoas. E durante a sua jornada neste mundo, muitas promessas serão quebradas. Mas não há motivos para se desesperar, isso só irá te afetar se você deixar. As pessoas só irão te magoar se você permitir que os sentimentos ruins delas corrompam os seus sentimentos bons. Só não se esqueça de que existem batalhas que merecem ser lutadas, dores que merecem ser sentidas e da mesma forma, outras que devem ser esquecidas. Deus me dá todos os dias a chance de recomeçar e escolher as batalhas certas. E nesse campo de guerra, minha mãe é a minha armadura e minha razão de lutar. 

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